O contraste de um mapa vazio
Ao percorrer o Alto Alentejo, o viajante encontra, em concelhos como Elvas ou Portalegre, uma densidade de contos populares recolhidos por investigadores como Thomaz Pires e catalogados pela Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Etnografia em 1982. Contudo, ao chegar a Sousel, a realidade etnográfica altera-se drasticamente. Segundo os registos etnográficos e monográficos locais da Universidade de Évora de 1995, a literatura oral nesta zona apresenta uma escassez sistemática, contrastando com a riqueza documental das áreas limítrofes.
Esta ausência não é apenas uma curiosidade académica; é uma lacuna que intriga quem estuda a identidade regional. Enquanto a Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo (CIMAA), nos seus indicadores estruturais de coesão territorial de 2023, sublinha a importância da salvaguarda do património cultural imaterial como pilar comum aos municípios da região, Sousel parece ter preservado a sua história de uma forma que escapou aos cadernos dos etnógrafos do século XX. O que resta, portanto, é um território que guarda os seus segredos com uma discrição quase absoluta nas suas referências bibliográficas.
A falta de registos sistemáticos, documentada pela Universidade de Évora em 1995, revela que, mesmo em esforços de prospecção e inventariação para o Plano Diretor Municipal (PDM), o trabalho de campo limitado a cerca de 20 dias de trabalho não foi suficiente para colmatar o hiato. Esta realidade coloca Sousel numa posição singular: um concelho que, apesar de inserido no território alto-alentejano, mantém uma reserva de memórias que ainda aguarda uma investigação dedicada e profunda.
A sombra do Condestável
Apesar da escassez de um corpus vasto, existe uma referência que sobressai na memória coletiva local: a ligação a D. Nuno Álvares Pereira. A Câmara Municipal de Sousel, em 2022, identifica esta como a lenda fundacional do concelho, situando-a temporariamente no período das campanhas medievais contra as incursões castelhanas. Esta narrativa, embora escassa em detalhes, serve como o pilar sobre o qual a identidade histórica de Sousel se apoia, ligando o quotidiano da vila a um dos nomes mais emblemáticos da história de Portugal.
Diferente de outras lendas alentejanas que se perdem em mitos de mouras encantadas ou potes de tesouros ocultos — motivos documentados em zonas limítrofes do Alentejo e analisados em estudos da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em 2024 —, a tradição de Sousel é marcadamente política e militar. Esta especificidade sugere uma memória coletiva mais focada na resistência e na afirmação da soberania do que no fantástico, uma distinção que separa Sousel da mitologia popular mais comum na região.
A obra de referência sobre as memórias, gentes, vilas e campos do concelho de Sousel, da autoria de João Richau, tenta precisamente organizar estes fragmentos. Ao incluir volumes dedicados aos recursos naturais, achados arqueológicos e tradições locais, o autor procura dar corpo a uma memória que permaneceu dispersa. É um esforço de sistematização que visa transformar a tradição oral num registo duradouro.
Entre o mito e o documento
A leitura óbvia seria assumir que Sousel, por se situar no Alentejo histórico, possui um corpus exaustivo e publicamente inventariado de lendas orais locais, tal como as de mouras encantadas ou potes de tesouros escondidos. No entanto, os dados alteram esta perspetiva imediata. Os estudos académicos e arqueológicos da Universidade de Évora (1995) demonstram que Sousel apresenta uma escassez inexplicável de registos bibliográficos e de tradição oral comparativamente aos concelhos vizinhos, carecendo de cartas arqueológicas e de recolhas sistemáticas aprofundadas.
É fundamental distinguir o que é tradição oral do que é registo histórico, uma tarefa que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDR Alentejo), nos seus planos de ordenamento e valorização regional de 2024, considera prioritária. Enquanto a lenda de D. Nuno Álvares Pereira é transmitida de geração em geração, a ausência de inventários sistemáticos documentada pela Universidade de Évora (1995) torna difícil validar muitas das narrativas populares através de escavações e inventários exaustivos.
Esta separação é o que permite, hoje, olhar para Sousel com um olhar novo. Ao reconhecer que a tradição oral é um objeto de estudo distinto do registo histórico, o concelho começa a valorizar o que tem, mesmo que isso signifique aceitar que muito do seu passado permanece envolto em silêncio. A lenda, neste caso, funciona como um reflexo da vontade de pertença, enquanto o documento, apoiado pelas orientações da CCDR Alentejo de 2024, serve como a âncora institucional.
A importância do inventário
A necessidade de inventariar o património cultural e as lendas tradicionais é um desafio que a CCDR Alentejo destaca nos seus planos de 2024 para os concelhos raianos e alentejanos. Para Sousel, isto significa que o trabalho iniciado por João Richau assume um papel central. A comparação com os registos etnográficos catalogados pela Fundação Calouste Gulbenkian / Centro de Etnografia em 1982 mostra a densidade existente em Elvas e Portalegre face à escassez documental sistemática em Sousel.
A estrutura de coesão territorial, reportada pela CIMAA em 2023, depende também desta salvaguarda do património cultural imaterial comum aos municípios da região. Quando um concelho consegue articular a sua história, seja ela baseada na lenda do Condestável documentada pela Câmara Municipal de Sousel em 2022 ou em achados arqueológicos, cria uma narrativa que fortalece a região. A escassez de registos identificada pela Universidade de Évora (1995) é, assim, um ponto de partida para investigações futuras.
O esforço de prospecção e inventariação do PDM, embora limitado aos cerca de 20 dias de trabalho de campo conduzidos pela Universidade de Évora em 1995, deixou uma base para o futuro. A obra de João Richau demonstra que existe uma vontade de preencher as lacunas apontadas pelos registos etnográficos. O desafio é agora transformar estes fragmentos dispersos num corpus coerente que possa ser partilhado.
O que permanece no presente
Hoje, o que resta da história de Sousel é um convite à descoberta baseado nos dados disponíveis nos arquivos e monografias locais. A lenda de D. Nuno Álvares Pereira, situada temporariamente no período das campanhas medievais pela Câmara Municipal de Sousel em 2022, continua a ser o fio condutor, mas é a ausência de outros contos populares — documentada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1982 — que torna Sousel um caso de estudo fascinante.
O concelho de Sousel, com a sua história contida e a escassez de registos bibliográficos apontada pela Universidade de Évora em 1995, mantém uma dinâmica própria que não precisa de mitos importados para se afirmar na região.
O futuro da memória de Sousel reside na capacidade de continuar a recolha iniciada nos trabalhos de campo de 20 dias reportados pela Universidade de Évora em 1995. Com o apoio das orientações da CCDR Alentejo de 2024 e a dedicação da comunidade, o que hoje é um vazio de registos poderá ser preenchido. Até lá, Sousel permanece como um território do Alto Alentejo onde o passado, mesmo documentado de forma escassa, continua a moldar o presente.